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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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30/06/2008 ..

Mínimo…



Voltei mais minimalista do que fui. Não sei se foram os ares ou todo o aprendizado de uma viagem muito mais interessante do que eu poderia imaginar. Some-se ao aprendizado a difícil tarefa de aprender tanto com a beleza, quanto com a tristeza. Beleza das lindas terras rodeadas pelo azul do mar, de um povo acolhedor e uma comida sem excessos. Simplesmente o ingrediente e a alegria de compartilhar a vida e a mesa. Bota aprendizado nisso!

Já aprender com a tristeza em meio a tanta beleza, não foi tarefa fácil. Nesses casos parece que uma coisa simplesmente não encaixa na outra, mas teve de ser enfrentada. A perda de uma pessoa a quem servi com tanta dedicação, por tantos anos e com tanta alegria, não estava prevista nesse script, como diria o meu avô. Servir é um ato de doação intensa e absoluta, caso contrário traz escondido lá pelas entranhas certo desconforto, coisa que não combina com o ato em questão. Servir é dar-se por inteiro, o dia inteiro, enquanto durar e depois. É fazer parte do contexto seja ele qual for, já que é uma escolha, natural que seja plena.

Senti a dor do desconforto junto com a Dra. Ruth Cardoso, meses atrás, quando as intrigas inescrupulosas tentaram ofuscar a veracidade, tanto da minha doação, quanto da dela. A minha, em servir sua família desde as primeiras horas do dia, durante sete lindos e exaustivos anos, com todo o significado que vinha impresso nisso. A dela, de tantas maneiras, umas singelas, outras intensas, todas sempre muito elegantes e comprometidas. Tantos pequenos gestos, alguns diários e tão pequenos, que talvez os serviçais, apenas os serviçais, tenham tido acesso. Nessa lista – nessa sim! - eu tenho a honra de ter estado.

Senti longe de casa, essa casa que por anos nós duas servimos, a dor da sua perda. Cenas de detalhes diários, como o primeiro pé de alface colhido da horta que plantamos juntas. Telefonemas inesperados, altas horas da noite, apenas para expressar gratidão e alegria. Momentos de gala e de pijama. Cenas de uma vida que dividimos por alguns anos, as duas a serviço, cada uma no seu fogão.

Foram dias de aprendizado na beleza e na tristeza. E o que mais é a vida senão esse emaranhado de emoções inesperadas com as quais temos que aprender a lidar? O que tirar de tudo isso? O excesso! A resposta que todos esperavam é mais simples do se imaginava: “Com quantos ovos se faz uma omelete quase perfeita? Nem três, nem quatro, só dois!”

Até!
01/07/2008 ..

O excesso...



Ainda discutindo sobre esse assunto, mais uma vez a viagem foi repleta de aprendizados nesse sentido. Eu sempre acreditei que “mais” não é a minha palavra de ordem. Mas também não acredito que “menos” seja. Há que se encontrar entre esses dois extremos o ponto de equilíbrio que repousa sobre uma palavra: harmonia.

Acredito mais do que nunca que seja ela a detentora da razão nessa e em tantas questões. Afinal o que pode ser mais determinante do que ela, seja na escola de samba ou na criação culinária? Eu trabalhei a vida inteira com “menus”, primeiro porque sempre acreditei na força e na razão da existência deles. Depois por que o universo quis que a minha carreira estivesse sempre entrelaçada a eles. O que foi, sem dúvida alguma, outra grande fonte de aprendizado.

Quando se pensa na estrutura de um “menu” a palavra de ordem é sempre ela: a harmonia. Não há espaço para outra, mesmo que por vezes uma bastante conhecida nossa, o “ego”, tente tomar o seu lugar. Aí está o cerne dessa e de tantas outras questões no nosso meio. Volto a dizer: quem tem que aparecer é a comida, não o cozinheiro. È bom ver o seu trabalho reconhecido, claro que é. Afinal, trabalhamos para isso também. Digo também porque certamente quando a vocação é o eixo filosófico da sua caminhada, alimentar está acima de tudo.

E alimentar quer dizer tanta coisa. Pode tanta coisa! Não são poucas as pessoas que se dizem tocadas, emocionadas pela minha cozinha. Isso já me assustou muito, afinal, que responsabilidade! Por outro lado, pelo nível de emoção que eu coloco em cada pitada de sal ou pimenta do reino – sempre moída na hora! – que adiciono aos meus pratos, não é surpresa que essa emoção possa eventualmente tomar de assalto alguém mais sensível numa noite mais iluminada.

É sempre uma boa sensação, não tenha dúvida. É mais ou menos como se um pouco da emoção utilizada como ingrediente naquele dia, de certa forma retornasse através da alegria que você conseguiu propiciar. Mas também é um caso sério, normalmente quando essa química acontece, são emoções muito fortes, trazidas de longe, resgatadas na infância, numa lembrança importante, numa passagem da vida. Mais uma vez, veja a responsabilidade! Nessa hora mais uma vez é preciso estar atenta e se necessário fazer entrar em campo o equilíbrio, caso contrário corremos o risco de sair por aí acreditando que somos algo mais do que simples cozinheiros. E nesses casos o excesso é quem faz a festa.

Até!
02/07/2008 ..

Ao que interessa...



Ficar alguns dias sem cozinhar é literalmente um martírio para um ser apaixonado como eu. De vez em quando, durante a viagem, dava um jeitinho e improvisava um jantar sem fogão no hotel mesmo. Não consigo passar por uma feira e não comprar nada. Simplesmente não dá. Ficar sem cozinhar também vai me deixando louca com o passar do tempo. Eu me insiro rapidamente na vida e nos costumes locais, começo a viver como se ali tivesse nascido! A primeira coisa que eu procuro é o supermercado e a feira local. Quero provar tudo o que é típico, todas as frutas, todas as comidas de rua, todas as possibilidades gastronômicas do pedaço. Aí me dói não poder manipular tudo aquilo, interferir e interagir com todas aquelas possibilidades. Coisa de cozinheiro.

Ontem voltei ao trabalho. Ainda com algumas boas horas de fuso-horário na cabeça, ou seja, lá pelas cinco da tarde já estou com sono. Subi para a cozinha pontualmente às sete e meia quando chegou o primeiro cliente e pensei: será que perdi o pique? Achei que lá pelas dez da noite estaria acabada. Mas é impressionante a força de tudo aquilo e em poucos instantes lá estava eu totalmente tomada de novo.

É, “tomada” é o termo exato para definir o que acontece com a gente durante um serviço. Mas é “tomada” do bem, pode até dar choque, mas não é o caso de chamar um padre para exorcizar! Tomar certo cuidado é indicado, afinal, é mais ou menos a mesma sensação de quando estamos apaixonados, loucuras podem acontecer, fazem parte desse contexto. No mais somos inofensivos, só atacamos quando pedem sal!

Até!
04/07/2008 ..

Simbolismos e azeite de oliva...



Hoje vai ser rapidinho porque ainda não consegui colocar tudo que precisava em ordem e, cá entre nós, tenho a estranha sensação de que talvez isso nunca mais aconteça! Essa viagem mexeu muito comigo, não sei se foi o simbolismo com o qual ela veio carregada – em tantos sentidos - ou se a verdadeira razão foi realmente o impacto que tudo me causou.

“A beleza de lindas terras rodeadas pelo azul do mar” foi pouco para descrever tanta plenitude e magnitude. Mesmo diante de tanta beleza, a vida segue leve e descomplicada. O mesmo acontece com a comida que é no fundo, algo mais do que apenas simples, é serena e confiante antes de mais nada. É viva, porque o mar assim determina, e pura, porque o azeite de oliva é quem dita quase todas as regras. Não há espaços para atores coadjuvantes. É a natureza no prato e nada mais. Para alguns pode até parecer falta de criatividade. Para mim, foi mais uma prova de que a verdadeira criatividade, aquela que realmente agrega e alegra, vem sempre regada com muito respeito e um pouco de azeite de oliva.

Agora o “quiz” do final de semana: por onde andei?

Até!
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